Na margem verde da estrada

Dezembro 6, 2006 at 4:38 pm Deixe um comentário

NA MARGEM verde da estrada
Os malmequeres são meus.
Já trago a alma cansada –
Não é de si: é de Deus.

Se Deus me quisesse dá-la
Havia de achar maneira…
A estrada de cá da vala
Tem malmequeres à beira.

Se os quer, colho-os, e tenho
Cuidado com os partir.
Cada um que vejo e apanho
Dá um estalinho ao sair.

São malmequeres aos molhos,
Igualzinhos para ver.
E nem põe neles os olhos,
Dá a mão pra os receber.

Não é esmola que envergonhe,
Nem coisa dada sem mais,
É pra que a menina os ponha
Onde o peito faz sinais.

Tirei-os do campo ao lado
Para a menina os trazer…
E nem me mostra o agrado
De um olhar para me ver…

É assim a minha sina.
Tirei-os de onde iam bem,
Só para os dar à menina –
E agradeceu-me a ninguém.

Fernando Pessoa

Entry filed under: Fernando Pessoa. Tags: .

Nada que sou me interessa Poeta castrado, não!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed



Folhetim Cultural e artístico de Lisboa, Divulgação Cultural
Facebook

Poemas do mundo

Poemas do meu Mundo que ardem vivos em meu olhar que no coração escavam bem fundo e que não o deixam pulsar...

  • 890,912 visitas

%d bloggers like this: