Sobre uma Imagem de Guerra

Agosto 31, 2006 at 10:45 am Deixe um comentário

Já vimos
todas as imagens de Varsóvia
da Somália ou de Saigão.Vimos
todos os gritos de terror
da criança a preto e branco
a branco e preto
a preto e sangue
a criança que ficou desmembrada na cratera da imagem
convocando para sempre
os navios da demência e da vergonhaJá vimos
imagens de todas as guerras
em todos os cantos da geografia do pavor.Mas o cheiro não vem nas imagens.
Digo o cheiro azedo.
O insuportável cheiro a medo e morte
o cheiro a carne a arder
o cheiro a ódio que desliza pelo metal bem oleado
e retalha a carne jovem
até dela só restar
dor e lama negra
negra e dor.

As imagens que já vimos
trazem o olhar vazado
e frente a elas
os poemas são inúteis.Para lá da composição,
para lá do papel e do grão,
no sítio do precipício
onde Munch enlouqueceu,
todas as palavras são crucificadas
e todos os nomes naufragam no vitríolo
e as pétalas da rosa
caminham estupefactas
para dentro da podridão.

José Fanha, in “Poemas da linha da frente” o livro inclui poemas de José Fanha e de José Jorge letria sobre o tema guerra.

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Poema desconhecido Recado a um militante

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