Trova do Vento que Passa

Junho 1, 2006 at 8:50 pm 6 comentários

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio — é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Quatro folhas tem o trevo
liberdade quatro sílabas.
Não sabem ler é verdade
aqueles pra quem eu escrevo.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

Manuel Alegre

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Sísifo Balada de Neve

6 comentários Add your own

  • 1. MGabriela Carrascalão  |  Janeiro 6, 2007 às 3:41 am

    No tempo da ocupação da minha Paátria timor-Lste, pela Indonésia o poema que me acompanhava nos momentos de angustia, de dor por tudo que por lá se passava, era este poema do MESTRE Manuel Alegre : “Trova do Vento que passa”.
    Deu-me força para continuar….. o poema no seu todo, mas especialmente as duas últimas quadras :

    “Mas há sempre uma candeia

    dentro da própria desgraça

    há sempre alguém que semeia

    canções no vento que passa.

    Mesmo na noite mais triste

    em tempo de servidão

    há sempre alguém que resiste

    há sempre alguém que diz não.”

    Manuel Alegre

    Mentalmente as recitava e as forças voltavam…obrigada

    MGabriela Carrascalão

    Responder
  • 2. José Pereira Mancebo  |  Outubro 17, 2007 às 2:24 pm

    Quatro folhas tem o trevo
    liberdade quatro sílabas.
    Não sabem ler é verdade
    aqueles pra quem eu escrevo

    Parece inacreditável esta quadra ser de Manuel Alegre, acho-a fora do contexto das outras na rima, podia tê-la feito assim:

    Quatro folhas tem o trevo
    quatro sílabas liberdade.
    Aqueles pra quem eu escrevo
    não sabem ler é verdade.

    Cordiais saudações
    José Mancebo

    Responder
  • 3. buterfly  |  Maio 19, 2009 às 2:04 pm

    e mt feio este poema… e devia ter uma interpretação pois eu preciso de fazer um trabalho e nao tenho como. :p

    Responder
  • 4. lala  |  Novembro 29, 2009 às 1:19 pm

    ‘Muito feio’? Nem o sabes intrepertar e ja dizes que é feio? Este poema fala dos tempos crueis que foram antes do 25 de abril, ninguem tinha direito a liberdade de expreção nem nada do genero..
    Mas como o próprio refere:
    “Mesmo na noite mais triste

    em tempo de servidão

    há sempre alguém que resiste

    há sempre alguém que diz não.”

    Tratase da luta para a liberdade..
    da proxima vez que abrir a boca, veja la o que diz.. nao e dizer que o poema e feio e pronto.. Toda a tese precisa de argumendos..

    Responder
  • 5. Lela Castro  |  Janeiro 23, 2011 às 1:22 am

    A poesia me leva a outras dimensões.
    É extraordinária a capacidade que os poetas têm de, através da emoção que se materializa nos seus escritos,nos fazer ver, viver o que eles sentem.
    É de uma beleza ímpar os versos de Manuel Alegre. É como se vivêssemos cada momento que o levou a escrever TROVA DO VENTO QUE PASSA.

    Responder
  • 6. elzinetemuniz  |  Maio 22, 2012 às 7:43 pm

    gostei desse poema

    Responder

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