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Saudades
Leva este ramo, Pepita,
de saudades portuguesas;
é flor nossa, e tão bonita
não na há outras devesas.
Seu perfume não seduz
não tem variado matiz,
vive à sombra, foge à luz,
as glórias d’amor não diz;
mas na modesta beleza
de sua melodia
é tão suave tristeza,
inspira tal simpatia!…
E tem um dote esta flor
que de outra igual não se diz:
não perde viço ou frescor
quando a tiram da raiz.
Antes mais e mais floresce
com tudo o que as outras mata;
até às vezes mais cresce
na terra que é mais ingrata.
Só tem um cruel senão,
que te não devo esconder:
plantada no coração,
toda outra flor faz morrer.
E, se o quebra e despedaça
com as raízes mofinas,
mais ela tem brilho e graça,
é como a flor das ruínas.
Não, Pepita, não ta dou…
Fiz mal em dar-te essa flor,
que eu sei o que me custou
tratá-la com tanto amor.
Almeida Garrett
Gozo e dor
Gozo e dor
Se estou contente, querida,
Com esta imensa ternura
De que me enche o teu amor?
Não. Ai não; falta-me a vida;
Sucumbe-me a alma à ventura:
O excesso de gozo é dor.
Dói-me alma, sim; e a tristeza
Vaga, inerte e sem motivo,
No coração me poisou.
Absorto em tua beleza,
Não sei se morro ou se vivo,
Porque a vida me parou.
É que não há ser bastante
Para este gozar sem fim
Que me inunda o coração.
Tremo dele, e delirante
Sinto que se exaure em mim
Ou a vida ou a razão.
Almeida Garrett
Destino
Quem disse à estrela o caminho
Que ela há-de seguir no céu?
A fabricar o seu ninho
Como é que a ave aprendeu?
Quem diz à planta – “Floresce!” -
E ao mudo verme que tece
Sua mortalha de seda
Os fios quem lhos enreda?
Ensinou alguém à abelha
Que no prado anda a zumbir
Se à flor branca ou à vermelha
O seu mel há-de ir pedir?
Que eras tu meu ser, querida,
Teus olhos a minha vida,
Teu amor todo o meu bem…
Ai! não mo disse ninguém.
Como a abelha corre ao prado,
Como no céu gira a estrela,
Como a todo o ente o seu fado
Por instinto se revela,
Eu no teu seio divino
Vim cumprir o meu destino…
Vim, que em ti só sei viver,
Só por ti posso morrer.
Almeida Garrett

